Carta do ídolo Alex para torcida Celeste!

Alex: “O senhor tinha razão, Seu Ênio”

O senhor tinha razão, Seu Ênio

por Alex

Em 1995 eu tive minha primeira oportunidade com a camisa do Coritiba na equipe principal. Aos 17 anos dava meus primeiros passos como jogador profissional. Fui conhecendo pessoas ligadas ao futebol, conquistando um espaço em Curitiba e era figura carimbada nas seleções de base do Brasil.

O Coritiba vivia uma crise financeira absurda e começaram a surgir procuras pelos nossos jogadores, os jogadores mais jovens de preferência. Foi a primeira e única vez que falei com uma lenda do nosso futebol: Ênio Andrade!

O Cruzeiro foi a primeira equipe a se interessar em minha contratação naquele ano. Acabou não acontecendo a negociação e fiquei com gosto de poder atuar um dia no Cruzeiro.

Seu Ênio, em 30 minutos de conversa, me desenhou o clube e disse que meu perfil se enquadrava na escola que o cruzeirense gostava. E aquilo batia na minha cabeça dia após dia. Desse dia em diante guardei uma frase em minha cabeça: “você possui o DNA do Cruzeiro”.

Não era um qualquer quem me falou. Era o mestre Ênio Andrade!

Era (sou) alucinado pelo Zico e pelo Sócrates, mas eles estavam longe. Comecei a assistir jogos em Curitiba. Com 10 anos de idade, ia sozinho aos estádios. Ia para ver três jogadores em especial: Serginho, Tostão e Carlinhos Sabiá. E pouco me importava em quais equipes eles estavam. Tostão e Carlinhos vieram do Cruzeiro.

Em 1996, na minha primeira competição de primeira divisão, fiquei apaixonado no Mineirão. Empatamos em 0 a 0 com o Cruzeiro, mas a maior lembrança que tenho é de uma bola que veio toda errada e o Palhinha consertou. Assim que ele domina, automaticamente o torcedor solta um “oooohhhhh!” e o Palhinha sai com a elegância de sempre.

Depois, já no Palmeiras, enfrentei varias vezes o Cruzeiro, sempre em grandes e disputados jogos. Aí chegou minha chance em 2001…

Eu estava com uma liminar da Justiça do Trabalho nas mãos e o treinador do Cruzeiro era o Paulo Cesar Carpegiani, o mesmo que seis anos antes tinha me puxado dos juvenis para o time principal no Coritiba.

Chego ao Cruzeiro e vejo o clube em um momento confuso. Bons nomes, mas sem um time formado. Eu, individualmente, sofrendo. Poucas vezes fui a campo e, quando fui, me apresentei abaixo do que podia.

Tive apenas um bom jogo, mas não era um jogo qualquer. Era o clássico diante do Atlético Mineiro, que naquele momento era mais time do que o nosso. Fiz dois gols e pude pela única vez dividir a alegria com o cruzeirense.

Acaba o fatídico ano de 2001. Treinador e diretoria me falam que contam comigo para a próxima temporada. Saio de férias, cheio de planos, e a FIFA me suspende por ter contrato duplo, com Cruzeiro e Parma. Daí minha vida vira uma loucura.

Para “ajudar”, o Cruzeiro espera até o último dia de férias para, num gesto covarde, o mais covarde que sofri em futebol, me mandar embora pelo telefone. Sem ao menos me dar o direito de pegar minhas coisas e me despedir dos companheiros.

Nove meses depois eu estava livre do Parma e para negociar com quem eu quisesse. Aí me liga Vanderlei Luxemburgo dizendo a seguinte frase: “ninguém quer você aqui, mas eu quero”.

Resolvi voltar.

Fiz meu pior contrato da carreira somente para apostar com o Luxa e comigo mesmo que era possível eu jogar bem com o manto azul. Estreio no Canindé e faço a jogada do gol da vitória. Bom início!

Entro em 2003 querendo apenas jogar futebol e ter um filho. Aí começa a magia… Fomos à Nova Lima enfrentar o Villa Nova, faço um bonito gol e saio do meu normal.

Subo no alambrado e comemoro com a torcida.

Logo depois, enfrentamos o clássico. Faço dois gols e dou uma assistência das mais lindas da minha carreira para o Marcelo Ramos arrematar com a categoria de sempre.

O discurso começa a mudar a partir dali. O torcedor começa a me entender, eu começo a entender o cruzeirense. Uso a 14 numa analogia aos anos consecutivos com títulos conquistados pelo clube. Levanto a taça de campeão mineiro.

Aqui, faço um parêntese: sou apresentado a Dirceu Lopes, o Príncipe! Cresci com meu pai falando de Rivellino, Ademir da Guia e Dirceu Lopes. Em São Paulo, já tinha conhecido os outros dois e agora estava tendo a honra de conhecer o Senhor Dirceu.

Naquele momento eu era o ex-jogador desacreditado que tinha se tornado capitão do time e que também contribui com uma pequena parcela na rica história do clube.

Passeávamos pela Copa do Brasil até chegarmos ao Maracanã. Vou dar uma letra do que aconteceu nesse momento. Enfrentamos um lindíssimo Maracanã rubro negro e um bom time do Fla. Mas fomos donos do jogo, desfilamos com bons passes e boas passagens dos laterais. E fiz nesse jogo um dos gols de mais difícil execução da minha vida.

Na quarta seguinte, jogamos 30 minutos e saímos campeões. Quiseram os deuses da bola que os gols saíssem da minha canhota. Aí a magia está se fechando. A essa altura, já tratava o Senhor Dirceu Lopes apenas por “Dirceu”. A simplicidade do Príncipe me permitia isso.

Após esse título, Dirceu me disse uma frase que carregarei para sempre: “Você é digno da 10!”. Saí de perto dele para chorar na rouparia em meio a muitas chuteiras sujas.

O Brasileirão corria e nos voávamos. A interação com o torcedor era absolutamente mágica. Vou a Curitiba, onde pretendia ser campeão em minha cidade, diante do Paraná Clube. Não aconteceu. E ainda aconteceu o pior: levo o terceiro cartão que me tira do esperado jogo do título, contra o Paysandu.

Quis o destino que eu fosse campeão brasileiro como torcedor. Ao lado de mais de 80 mil pessoas nas arquibancadas do velho e saudoso Mineirão. Minha ansiedade era tamanha que dei a volta olímpica com o jogo acontecendo. Não aguentava de tanta alegria. Não aguentava de tanta emoção que sentia naquele momento. Se engana quem acha que dei aquela volta olímpica sozinho. Demos a volta olímpica! Eu apenas puxei mais de 8 milhões de corações felizes.

Num passe de mágica, eu era um ex-desacreditado que se tornou o capitão da tríplice coroa. Minha mulher, que tinha perdido duas gestações, estava grávida. Graças a um tratamento que o clube me permitiu alcançar devido aos vários dias que me ausentei da Toca.

Recebo as faixas do Príncipe e faço o gol mais difícil da minha carreira no mesmo dia, contra o Fluminense. Vou para casa pensando: essa magia não acaba?

Na semana seguinte meto 5 gols e entro na galeria dos goleadores do clube. Acabou? Não!

Volto para assistir a um jogo da Libertadores em 2009, contra o Grêmio, e repito o gesto da volta olímpica de 2003. Assinaria um contrato em branco naquele dia, devido a tanta emoção. Aí sigo um pouco cruzeirense, à distância, mas sigo.

Quando me deparo com a semana de festa: 27 de junho de 2015 será somente o carimbo de uma história. Uma constatação.

Seu Ênio Andrade disse que eu tinha o DNA do Cruzeiro. Realmente ele acertou…

Obrigado, Cruzeiro, pela segunda chance.

Obrigado, cruzeirense, por me proporcionar a oportunidade de comprovar a tese do Seu Ênio.

Espero vocês no Mineirão. O Cruzeiro merece.

Fonte original:
http://espnfc.espn.uol.com.br/cruzeiro/trem-azul/5077-alex-o-senhor-tinha-razao-seu-enio

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